Retrato de uma familia numerosa

sábado, maio 12, 2007

Primeiro um peixe, depois uma gata, e ai um gato, e uma gata de novo. Quando todos pensaram que ja tinha acabado, veio uma pimenteira. Ah, mas uma pimenteira tudo bem, ne? Alguns dias depois, uma cachorra. Ahn?? Como??? Uma cachorra? Eh. O peixe ja tinha ido embora nesse meio tempo, mas ele nem ocupava tanto espaco assim. Recapitulando: 3 gatos, uma pimenteira, uma cachorrinha e 2 (ou mais) lesbicas. Em trinta metros quadrados.

E o pior eh que eu ja fiz coisas mais insensatas do que isso.

Sal e mar

sexta-feira, abril 13, 2007

E ela caminhava, sem rumo, incomodada. Infeliz. Algo não estava bem - ou seria mais correto dizer que nada estava bem? Não, isso não era verdade. Tudo estava no seu lugar, o sol ainda era sol, o mar ainda era mar, e aquele cheiro de umidade e bolor continuava o mesmo. Coisas velhas, aquele quarto fechado de casa de praia utilizada só nas férias das crianças, uma droga. Isso mesmo, uma droga, uma porcaria de casa. Infiltração, mofo, que nojo daquelas paredes. As crianças gostavam, se divertiam. A menina mais nova tinha suas crises de asma de vez em quando, mas nada que não fosse rapidamente contornado. Porcaria, na cidade as crises eram menos freqüentes, mas as crianças gostam dessa casa de praia, imunda. Vontade de chorar, mas por que chorar? Nenhum motivo aparente. Às vezes ela se perguntava se você precisa de motivo para chorar ou de motivo para sorrir. Se não há motivo para sorrir, para que sorrir? Para que estar feliz?

Ela não sabia se tinha motivos para qualquer uma das opções. Mas queria chorar, gritar, bater naquela rede encardida, morder alguma coisa bem forte. Sentia-se triste, com um nó na garganta. Felicidade, o que seria isso? Algo que nunca chega. Está tudo bem, está tudo tranqüilo, está tudo estável. Mas será que ela quer estabilidade?

A tristeza retira toda sua força física. Passeia sem tônus, queixa-se de cansaço. Se não se sentisse tão mal, não estaria tão cansada. Mas ela nem sabe como mudar, e talvez nem queira mudar. Quer sentir, quer chorar, quer sofrer. Ela precisa da dor, da raiva, da angústia, ela precisa de uma boa dose de intensidade de se sentir viva, necessária para sua própria existência. Ela precisa sentir que é importante para ela mesma. E será que é?

Ela sai da casa e vai em direção ao mar. Pensa em como seria mergulhar naquele mar, sentir-se abraçada por ele e nunca mais retornar. Gosta da sensação de inexistência. Ela senta na areia da praia, admira o sol da tarde nublada, inclina seu corpo para trás e deita na areia suja. Abre seus braços e olha para o céu - sente-se envolta por um mundo de nuvens, calor e cheiro de água com sal e suor. Pensa na sua pífia existência e, por um instante, deixa rolar algumas poucas lágrimas. Sente-se sozinha. Sente-se vazia de importância, e cheia de sentimentos. Para quem entregar esses sentimentos? Quem a receberia sem julgamentos, completa?

Pensa em morrer. A idéia não é tão atraente, pouco oferece em troca. Ela gosta de viver, gosta de sentir. Às vezes ela se sufoca com suas próprias emoções. Com quem compartilhar? Ela está sozinha. Suas crianças são quase que brinquedos, sua casa é velha e escura. Seu coração está seco, rígido, frio. Seu corpo é apenas uma caixa, aprisionando um sem-fim de emoções. Ela sente-se cansada e desiste de pensar e de sentir. Olha para o céu e gosta do desenho das nuvens.

Saindo de casa

sábado, dezembro 23, 2006

To me sentindo como se estivesse fazendo tudo errado. "Como se estivesse" não, eu estou fazendo tudo errado. Mas eu estou cansada, e me sentindo tão, tão, tão despreparada pra lidar com tudo isso. Queria uma ajuda, um apoio, um direcionamento. Cadê meus pais nessa hora? Onde eles estiveram esse tempo todo? Não me sinto preparada pra fazer tudo sozinha, e cada vez mais as responsabilidades ficam maiores e eu aqui, perdida. Que droga. Por que os adultos não criam seus filhos para que eles saibam se virar sozinhos? Os meus adultos, pelo menos, não deram muita bola pra essa coisa de "criar cidadãos", ou "criar para a vida", essas frases bonitas. Na verdade, nem sei se deram muita bola pra esse papo de criar filhos...

Queria presença, apoio, conselhos. Dicas. "Faz assim", "faz assado", "desse jeito aqui funciona". Mas só tenho indiferença e tapas na cara.

Acho que já vou tarde...

Gatinhos

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Ontem os gatos assistiram pela primeira vez ao Karajan regendo a Filarmônica de Berlim nas Quatros Estações. Morreram de medo, tadinhos. Janus saiu correndo e se escondeu do outro lado do quarto logo nos aplausos do início. A Schala ficou curiosa, intrigadíssima: mas música não saía daquele outro aparelho? Esse passava só imagens e ruídos! Ela ficou assistindo um tempo, acho que chegou a ver o Verão inteirinho sentada na frente da TV. Uma graça.

De madrugada e de manhã, eles destruíram o quarto. Eu só ouvia os barulhos de papéis caindo no chão, gatos correndo alucinados pelo quarto, CDs derrubados. Até o anti-social do Janus resolveu encher meu saquinho e morder meus dedos do pé enquanto eu dormia. Resultado: cansaço absoluto, um quarto hiper bagunçado e crianças dormindo, quietinhas, agora à tarde. Eu mereço...

Resumo

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Dia tranqüilo, Natal chegando. Passeio com mãe, compras com mãe. Chateação com mãe - mas ela não percebeu, então tudo bem. Presente pra mãe. Gripe chata. Gatos na cama. É, no plural: Janus tá sociável. Muito sono de dia, nenhum sono agora à noite. Namorada fofa. Não-fome. Ensaio, apresentação amanhã. Ordem cronólogica de merda essa, hein? Enfim. Menina dorme na cama ao lado, eu no computador. Sem sono. Vontade de abraçar...

Sobre entrega

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Eu me entreguei, me doei. Arrisquei tudo: agora é hora. Eu sabia que gostava muito mais de ti do que aquilo que eu andava sentindo, mas morria de medo. Foda-se o medo, eu quero que ela saiba, pensei. E foi. Dei tudo que podia dar, é até ridículo falar isso, foi só uma noite - mas pra mim não foi só uma noite. Foi minha alma, meus sentimentos, meus medos, minhas emoções, meu coração, meu corpo, meus traumas e minhas vontades. Foi intenso, como era no começo, e como eu me esforcei tanto para esconder. Mas esconder tudo isso estava me matando e estava nos matando, então resolvi mostrar. Abri tudo. Te dei tudo. Fiquei vulnerável, e agora essa palavra me parece tão mais vulnerável do que me parecia antigamente, talvez porque hoje eu saiba os riscos dela. Mas quem liga para o tamanho da queda? Eu queria que soubesses. E explodi de um jeito que tu nunca tinhas visto, e não sei se vais ver algum dia de novo. Esses momentos costumam não voltar.

Hoje eu só queria ter certeza de que tinhas percebido. Queria que tu demonstrasses, "estou disposta". "Pode vir, eu te seguro". "Vai dar tudo certo", e "sim, vale a pena". Mas não foi isso que aconteceu.

Normalmente eu andaria a cidade inteira. Iria parar no eixão, ficaria dando voltas na cidade. Mas lembrar dos gatinhos me fez vir direto para casa.

Espero que você tenha uma boa noite.

Coisas enormes, fim de dia estranho

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Cansada, chateada, irritada... tudo tá ótimo, mas o fim do dia foi o erro. O que foi que aconteceu que eu não vi? Só sei que uma hora estávamos as duas no carro, sem se falar, o clima terrível. E nenhuma das duas estava errada, ou certa, e nenhuma das duas tinha por que pedir desculpas (droga de mania a minha de pensar se há certos e errados, o mundo não se divide nisso). E sei lá, uma droga.

A gente deveria estar comemorando, estourando champagne, fazendo amor. Se fofinhando, e sem gatos no meio (já teve gato demais hoje). E tá tudo esquisito.

Odeio quando não consigo conversar com ela pelo MSN. O assunto não vem, as frases não saem, e a conversa fica parada. E, mesmo quando ela fala, eu não sei o que dizer. Que merda, será que eu desaprendi a namorar?

Gosto dela, e o dia deveria terminar bem. Coisas enormes hoje, será que bateu o peso da responsabilidade? Vamos ser gente grande agora. E eu gosto da idéia de isso estar acontecendo com ela. E, mesmo quando a gente briga (ou seria especialmente quando isso acontece?), eu tenho certeza de que a gente se merece.

De volta!

terça-feira, dezembro 05, 2006

Blog de volta.

Com 3 blogs pela internet, esse fica sendo o meu espaço pessoal e de Águeda "inteira". (Posso dizer que é um blog holístico?) Não só a lésbica, não só a agressiva, não só a apaixonada. Toda-Águeda.

Inclusive as coisas chatas que ninguém quer saber, como gatos e universidade. Mas quem se importa? Esse blog nunca quis ser pop.

Volta a ser um registro dos meus dias.

Blog parado.

sábado, setembro 16, 2006

Parado, não fechado.

Esse blog está em crise de identidade. Ando escrevendo mais para os outros dois (!) blogs e para o fotolog. Não sei o que colocar aqui, para ser honesta. Quando eu descobrir para que serve esse espaço preto-e-vermelho eu volto a postar.

Conto

terça-feira, agosto 08, 2006

Eu queria escrever um conto que flutuasse. Ele seria quase um sonho, e alcançaria as pessoas através do ar. E elas não entenderiam o que acontecia - a incômoda sensação de paz. O sorriso que não pede licença. As pessoas respirariam o conto, e devolveriam suas palavras com mais vida, a história cada vez mais rica de detalhes e de sonhos individuais. O conto seria expirado mais feliz, e assim passaria de pessoa para pessoa, cada uma se sentindo estranhamente bem e devolvendo ao mundo uma história mais completa.

E assim o dia transcorreria com mais naturalidade e com mais sol. Os cafés seriam tomados em xícaras grandes, gordas, ao som dos passarinhos. Os ônibus da cidade estariam limpos e - bem mais - coloridos. As mãos mais quentes, e os olhares mais brilhantes.

E ninguém perceberia mudança nenhuma, pois nada acontecera. Nada mudara nesse amanhecer, a paz não havia sido anunciada no mundo, e mesmo se tivesse, quem se importaria? Nada mudaria. Ah, mas meu conto mudaria as pessoas; entraria na alma delas e limparia a bagunça. As pessoas assoviariam e passariam a se importar com as outras. Elas chorariam quando sentissem vontade, e confiariam seus segredos às outras. Não, não! Não haveriam segredos. Apenas o mistério daquela súbita alegria, daquele sol tão esplendoroso, em uma manhã de terça-feira.

Preguiça/tédio/licenciatura

quinta-feira, julho 27, 2006

Tanto tempo que eu não tinha um período calmo para respirar que eu até tinha esquecido o tanto que eu posso ficar chata.

(E muitas vezes sem razão.)

Como diria Garfield: "há tédio até onde a vista alcança".

xxx

Férias (auto-decretadas) boas, preguiça pra sempre. Um semestre a mais, um a menos, que diferença faz, né? Se a gente tem que encarar a licenciatura mesmo, que ao menos seja em doses homeopáticas. Chega de sofrimento condensado em um só semestre. (também, didática + oeb + tim faz isso com as pessoas.)

Não agüento mais a cara da UnB!

Realidade, hoje.

segunda-feira, julho 24, 2006

Tive sonhos ruins hoje. Uma série de sensações voltaram. Rejeição, raiva, tristeza, medo, angústia, sofrimento. Dor. Aquele aperto no peito de novo, aquele desespero. A vontade de chorar que nunca passa. Acordei sem muita noção de tempo, de amores. A minha calma, que já durava algumas semanas, desapareceu. Tristeza, rejeição.

Olhei para o lado. Abracei forte minha Flor, vontade de pedir ajuda. Não me deixa sentir aquilo de novo, por favor, não quero. Promete que vai ser diferente... promete que você não vai me abandonar. Promete que não vai me trocar, me rejeitar, nem me tratar como algo vergonhoso. Promete que vai cuidar de mim, que vai dar tudo certo. Promete que me ama.

- Promete?

- Prometer o quê? - ela sorriu, doce.

Tantos pedidos, nenhum deles era possível. Nenhum "sim" seria verdadeiro - como controlar o futuro? Eu também não sabia o que eu queria que ela prometesse, só que dissesse sim. Promete que não vai doer, promete que você vai ser sincera, promete que eu vou poder confiar. Mas eu sabia que nenhuma resposta me acalmaria: que garantias eu teria com um "sim"? Nem eu sabia o que pedir.

Acabei falando algo parecido com o seguinte:

- Promete que você vai sempre ser minha amiga?

Ao que ela respondeu, sem demora:

- Sim, acima de tudo, sempre.

Vida boa...

domingo, julho 23, 2006

Eu não estou acostumada a uma vida tão boa e tranqüila.

(nem a momentos cinematográficos)

Como falar sobre pôr-do-sol, beira do lago, trilha sonora e fogos de artifício? Melhor não falar.

"...uma coisa que já está acontecendo?"

terça-feira, julho 18, 2006

E tem vezes que o processo pára.

Será que é medo de tentar?

Ou será que é, de modo inverso, o desejo que aconteça?

Só sei uma coisa: tudo acontece na hora errada, sempre. No mundo. Na vida.



(eu me saboto?)

gato.

sexta-feira, julho 14, 2006

Acho que a Nina tá grávida.

Não me sinto preparada pra ser avó...

Ensaio sobre a saudade.

sábado, julho 08, 2006

Não é o que será escrito agora. O "ensaio sobre a saudade" foi escrito ontem, durante uma conversa. Hoje ficam as lembranças, as sensações. Alguns argumentos. Frases de efeito.

"A saudade escraviza."
"Só existe saudade quando se postula que um certo período de tempo foi maravilhoso, perfeito, incrível e - o principal - insuperável."
"Você sente saudade de coisas, pessoas, eventos e lugares que não existem mais. Eles ficaram no passado. Você fala com a pessoa hoje mas não cria uma história nova; você acha que gosta dela e sente saudade dela, mas você sente saudade do que já foi, do que não é mais."

Relatos pessoais.

"Eu ia pra Belém e tudo estava diferente. Não era a minha cidade, aquela que eu tinha saudade. Eu não morava mais lá; eu não estudava mais lá. Meus amigos tinham que abrir espaço na agenda pra mim. Aquele lugar não me pertencia mais, ou eu não pertencia a ele, ou os dois. Mas quando eu voltava pra Brasília eu sabia que aqui também não era meu lugar. Vivia num limbo."

Conjecturas, medos.

"Se eu voltasse, não sei se minha 'melhor amiga' seria minha 'melhor amiga'. O tempo do relacionamento mudou, o timing. Não a conheço mais. Não sei o prato favorito dela, a cor favorita, a roupa que ela mais usa, o CD que ela está ouvindo, o lugar pra onde ela saiu fim de semana passado. Não sei se saiu, não sei com quem ela anda. Não sei se a amizade sucumbiria à presença. À falta da saudade."

Pensamentos que eu não externalizei.

"Tantas músicas hoje na rádio, todas me trazem ela. De um modo ou outro, ela está lá, em todas. Seja porque gostava, porque desgostava ou sei lá por que. E me deu uma saudade tão boa, e eu fiquei feliz com isso. Não trouxe dor, desespero ou angústia. Fiquei feliz ao ouvir, eu sorria lembrando de tudo. Saudades. A dita saudade boa. Mas será mesmo? A saudade engana. Escraviza. Nós nos acostumamos a ser reconfortados por ela e esse conforto nos prende. Não nos deixa seguir adiante. Ficamos presos a lembranças, e por melhor que seja a sensação, ela não te deixa viver o presente. Já tive muita saudade. Não quero ter de novo..."

O efeito da saudade.

"Parece que fica tudo cinza, não parece? O tempo não passa. Tudo é muito triste e dolorido, e só o pensamento no passado acalma. Já chorei tanto, tanto... e o pior é perceber que eu não chorei por uma pessoa, eu chorei por uma época que já foi. Por uma lembrança."

E mais reflexões sobre a saudade.

"Eu não tive saudade de tanta gente e tanta coisa que passou na minha vida. Talvez porque eu não acreditava que aquele tinha sido o melhor período da minha vida. Insuperável."
"Tão humano... e ao mesmo tempo não. É ridículo pensar que é humano sentir saudade. Não é. Mas a saudade é algo que te humaniza de alguma forma... te faz real."
"Existe a saudade boa e a saudade ruim. Mas será que as duas são tão diferentes assim? Talvez a linha seja muito tênue. Talvez seja só o tanto que você se deixa levar pela saudade."

E a pergunta que iniciou tudo.

"Você já sentiu muita saudade? Muita muita muita saudade mesmo?"

Caio Fernando Abreu, at last.

sexta-feira, junho 30, 2006

AQUELES DOIS
(História de aparente mediocridade e repressão)

Caio Fernando Abreu

A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.

Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois.

Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.

II

Eram dois moços sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste — e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade — de certa forma, também em nenhuma outra —, a não ser a si próprios. Diria também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro.

Além do violão, Raul tinha um telefone alugado, um toca-discos com rádio e um sabiá na gaiola, chamado Carlos Gardel. Saul, uma televisão colorida com imagem fantasma, cadernos de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro com reproduções de Van Gogh. Na parede do quarto de pensão, uma outra reprodução de Van Gogh: aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas do assoalho, colocado na parede em frente à cama. Deitado, Saul tinha às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasiões que desenhava.

Eram dois moços bonitos também, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretárias. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia.

Moreno de barba forte azulando o rosto, Raul era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo, tão adequada aos boleros amargos que gostava de cantar. Tinham a mesma altura, o mesmo porte, mas Saul parecia um pouco menor, mais frágil, talvez pelos cabelos claros, cheios de caracóis miúdos, olhos assustadiços, azul desmaiado. Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.

III

Cruzavam-se, silenciosos mas cordiais, junto à garrafa térmica do cafezinho, comentando o tempo ou a chatice do trabalho, depois voltavam às suas mesas. Muito de vez em quando, um pedia um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam frases como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou já tentei tanto, agora desisti. Durou tempo, aquilo. E teria durado muito mais, porque serem assim fechados, quase remotos, era um jeito que traziam de longe. Do norte, do sul.

Até um dia em que Saul chegou atrasado e, respondendo a um vago que que houve, contou que tinha ficado até tarde assistindo a um velho filme na televisão. Por educação, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro não se sentisse mal chegando quase às onze, apressado, barba por fazer, Raul deteve os dedos sobre o teclado da máquina e perguntoü: que filme? Infâmia, Saul contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ninguém conhece. Raul olhou-o devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito. Abalado, convidou Saul para um café e, no que restava daquela manhã muito fria de junho, o prédio feio mais que nunca parecendo uma prisão ou uma clínica psiquiátrica, falaram sem parar sobre o filme.

Outros filmes viriam, nos dias seguintes, e tão naturalmente como se de alguma forma fosse inevitável, também vieram histórias pessoais, passados, alguns sonhos, pequenas esperança e sobretudo queixas. Daquela firma, daquela vida, daquele nó, confessaram uma tarde cinza de sexta, apertado no fundo do peito. Durante aquele fim de semana obscuramente desejaram, pela primeira vez, um em sua quitinete, outro na pensão, que o sábado e o domingo caminhassem depressa para dobrar a curva da meia-noite e novamente desaguar na manhã de segunda-feira quando, outra vez, se encontrariam para: um café. Assim foi, e contaram um que tinha bebido além da conta, outro que dormira quase o tempo todo. De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido.

Atentas, as moças em volta providenciavam esticadas aos bares depois do expediente, gafieiras, discotecas, festinhas na casa de uma, na casa de outra. A princípio esquivos, acabaram cedendo, mas quase sempre enfiavam-se pelos cantos e sacadas para contar suas histórias intermináveis. Uma noite, Raul pegou o violão e cantou Tú Me Acostumbraste. Nessa mesma festa, Saul bebeu demais e vomitou no banheiro. No caminho até os táxis separados, Raul falou pela primeira vez no casamento desfeito. Passo incerto, Saul contou do noivado antigo. E concordaram, bêbados, que estavam ambos cansados de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas. Que gostavam de estar assim, agora, sós, donos de suas próprias vidas. Embora, isso não disseram, não soubessem o que fazer com elas.

Dia seguinte, de ressaca, Saul não foi trabalhar nem telefonou. Inquieto, Raul vagou o dia inteiro pelos corredores subitamente desertos, gelados, cantando baixinho Tú Me Acostumbraste, entre inúmeros cafés e meio maço de cigarros a mais que o habitual.

IV

Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfídia, La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, Tú Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutil llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi.

Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma.

Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, bebiam, fumavam, falavam o tempo todo. Enquanto Raul cantava — vezenquando El Día Que Me Quieras, vezenquando Noche de Ronda —, Saul fazia carinhos lentos na cabecinha de Carlos Gardel, pousado no seu dedo indicador. Às vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro. As moças não falaram com eles. Os funcionários barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou três piadas. Quando faltavam dez minutos para as seis, saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda.

V

Quando começava a primavera, Saul fez aniversário. Porque achava seu amigo muito solitário, ou por outra razão assim, Raul deu a ele a gaiola com Carlos Gardel. No começo do verão, foi a vez de Raul fazer aniversário. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo não tinha nada nas paredes da quitinete, Saul deu a ele a reprodução de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversários, aconteceu alguma coisa.

No norte, quando começava dezembro, a mãe de Raul morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. Á noite, em seu quarto, ligava a televisão gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava Carlos Gardel. Bebeu bastante, nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Raul, todo de branco, abrindo os braços para ele. Abraçados fortemente, e tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando mas ele é que devia estar de luto.

Raul voltou sem luto. Numa sexta de tardezinha, telefonou para a repartição pedindo a Saul que fosse vê-lo. A voz de baixo profundo parecia ainda mais baixa, mais profunda. Saul foi. Raul tinha deixado a barba crescer. Estranhamente, ao invés de parecer mais velho ou mais duro, tinha um rosto quase de menino. Beberam muito nessa noite. Raul falou longamente da mãe — eu podia ter sido mais legal com ela, disse, e não cantou. Quando Saul estava indo embora, começou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Saul estendeu a mão e, quando percebeu, seus dedos tinham tocado a barba crescida de Raul. Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente. E tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro: o de Raul, flor murcha, gaveta fechada; o de Saul, colônia de barba, talco. Durou muito tempo. A mão de Saul tocava a barba de Raul, que passava os dedos pelos caracóis miúdos do cabelo do outro. Não diziam nada. No silêncio era possível ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou que, quando Saul levou a mão ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender.

Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde.

Depois, chegou o Natal, o Ano-Novo que passaram juntos, recusando convites dos colegas de repartição. Raul deu a Saul uma reprodução do Nascimento de Vênus, que ele colocou na parede exatamente onde estivera o quarto de Van Gogh. Saul deu a Raul um disco chamado Os Grandes Sucessos de Dalva de Oliveira. O que mais ouviram foi Nossas Vidas, prestando atenção no pedacinho que dizia até nossos beijos parecem beijos de quem nunca amou.

Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã, Saul foi embora sem se despedir para que Raul não percebesse suas fundas olheiras.

Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias — e tinham planejado, juntos, quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro — ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe de seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio", "psicologia deformada", sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul colocou-se em pé. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, entre coisas como a-reputação-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores estão despedidos.

Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala deserta na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de verão escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem íris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de café, a letra de Tú Me Acostumbraste, escrita à mão por Raul numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador, em silêncio.

Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

Circo

terça-feira, junho 27, 2006

É como estar em queda livre e saber que não tem nenhuma rede de segurança lá embaixo.



Sempre uma mistura de culpa, rejeição, decepção, descrença e falta de sentido...

Chocolate Quente

segunda-feira, junho 26, 2006

Fiz chocolate quente hoje!

Falta só o conhaque ou o rum chegarem.

"Quem sou eu?"

domingo, junho 25, 2006

"- Quem sou eu?
- Você é a Águeda.
- Isso não diz nada. Eu não sei quem eu sou. Em que eu acredito, o que eu penso."

"A coisa mais radical que alguém pode fazer com uma pessoa: mudar os valores dela."

"Você tem que começar a viver por você, e não pelos outros."

"Tem tanta culpa aqui dentro..."

"Hoje eu vou me cortar."

"É uma esquizofrenia de julgamentos aqui dentro. Não sei o que pensar, só sei que me sinto mal."

"Amanhã eu vou me arrepender. E depois de amanhã vou achar que fiz o melhor, e no outro dia vou me arrepender de novo."

"É um símbolo de força e poder, e você não tem cacife pra agüentar ele. Você chama os outros pra briga mostrando isso. E não agüenta."

"O efeito do álcool tá passando, preciso de mais."

"Vodca e açúcar, suicídio?"

"Há 3 dias eu não pensava nisso..."

"Eu sempre fodo tudo, e eu to cansada de agir mal com os outros. Já errei demais."

"Aquilo tudo não aconteceu, é ridículo. Ridículo."

"Por que eu me sinto tão Jenny?"

"Acho que estou louca, completamente... surtada, surtada. Quero chorar..."

"Cansei de me sentir um lixo."

"Cansei de fazer os outros sofrerem."

"Não senti nada. Nada, nada, nada."

"Sinto a tua falta."

"Queria o teu abraço agora."

"Me sinto meio alcoólatra, viciada mesmo."

"Taquicardia, o choro vinha do nada. Eu tremia no meio da aula, bizarro. Não conseguia controlar. Queria a voz dela..."

"Acho que estou ficando louca. Preciso de um médico... um psiquiatra, não sei. Tá foda."

"Você já percebeu que só consegue ficar bem quando você tá bem com ela? E quando vocês brigam você fica péssima?"

"Alguém tem que ser a mártir, odeio isso. Ela me tratou hoje como se ela fosse a coitadinha da história, a vítima que quer que eu fique bem. Que porra! Sou eu que tô fudida psicologicamente, não ela."

"E amanhã?"

 
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