Sal e mar

sexta-feira, abril 13, 2007

E ela caminhava, sem rumo, incomodada. Infeliz. Algo não estava bem - ou seria mais correto dizer que nada estava bem? Não, isso não era verdade. Tudo estava no seu lugar, o sol ainda era sol, o mar ainda era mar, e aquele cheiro de umidade e bolor continuava o mesmo. Coisas velhas, aquele quarto fechado de casa de praia utilizada só nas férias das crianças, uma droga. Isso mesmo, uma droga, uma porcaria de casa. Infiltração, mofo, que nojo daquelas paredes. As crianças gostavam, se divertiam. A menina mais nova tinha suas crises de asma de vez em quando, mas nada que não fosse rapidamente contornado. Porcaria, na cidade as crises eram menos freqüentes, mas as crianças gostam dessa casa de praia, imunda. Vontade de chorar, mas por que chorar? Nenhum motivo aparente. Às vezes ela se perguntava se você precisa de motivo para chorar ou de motivo para sorrir. Se não há motivo para sorrir, para que sorrir? Para que estar feliz?

Ela não sabia se tinha motivos para qualquer uma das opções. Mas queria chorar, gritar, bater naquela rede encardida, morder alguma coisa bem forte. Sentia-se triste, com um nó na garganta. Felicidade, o que seria isso? Algo que nunca chega. Está tudo bem, está tudo tranqüilo, está tudo estável. Mas será que ela quer estabilidade?

A tristeza retira toda sua força física. Passeia sem tônus, queixa-se de cansaço. Se não se sentisse tão mal, não estaria tão cansada. Mas ela nem sabe como mudar, e talvez nem queira mudar. Quer sentir, quer chorar, quer sofrer. Ela precisa da dor, da raiva, da angústia, ela precisa de uma boa dose de intensidade de se sentir viva, necessária para sua própria existência. Ela precisa sentir que é importante para ela mesma. E será que é?

Ela sai da casa e vai em direção ao mar. Pensa em como seria mergulhar naquele mar, sentir-se abraçada por ele e nunca mais retornar. Gosta da sensação de inexistência. Ela senta na areia da praia, admira o sol da tarde nublada, inclina seu corpo para trás e deita na areia suja. Abre seus braços e olha para o céu - sente-se envolta por um mundo de nuvens, calor e cheiro de água com sal e suor. Pensa na sua pífia existência e, por um instante, deixa rolar algumas poucas lágrimas. Sente-se sozinha. Sente-se vazia de importância, e cheia de sentimentos. Para quem entregar esses sentimentos? Quem a receberia sem julgamentos, completa?

Pensa em morrer. A idéia não é tão atraente, pouco oferece em troca. Ela gosta de viver, gosta de sentir. Às vezes ela se sufoca com suas próprias emoções. Com quem compartilhar? Ela está sozinha. Suas crianças são quase que brinquedos, sua casa é velha e escura. Seu coração está seco, rígido, frio. Seu corpo é apenas uma caixa, aprisionando um sem-fim de emoções. Ela sente-se cansada e desiste de pensar e de sentir. Olha para o céu e gosta do desenho das nuvens.

 
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